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Anathema

"Todos elogiam o sonho, que é o descansar da vida. Mas é o contrário, Doutor. A gente precisa do viver para descansar dos sonhos"

Anathema

"Todos elogiam o sonho, que é o descansar da vida. Mas é o contrário, Doutor. A gente precisa do viver para descansar dos sonhos"

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Era uma vez um ano que ia ser novo. Estava muito nervoso, nunca tinha sido ano novo anteriormente. É daquelas coisas que só acontecem uma vez na vida. A passagem de ano foi muito difícil, as badaladas não o deixaram dormir, mas o pior foi ter de lidar com aqueles desejos todos que as pessoas lhe pediram. Como é que ele podia satisfazer aqueles pedidos todos e dar vazão a tanta passa? Para não falar, naturalmente, das cores da roupa interior – é certo que havia um catálogo a explicar os diferentes significados – mas era muita informação para um ano recém-nascido e todos sabemos que, nos primeiros tempos, os anos são todos verdes. Depois, com o tempo – é assim com tudo, sobretudo com o próprio tempo – lá percebeu que era um velho costume das pessoas, esse de pedirem ao ano novo coisas que só elas podiam concretizar. Achou estranho, na verdade, ainda perdeu uns segundos a tentar encontrar uma explicação, mas teve de esquecer o assunto e virar a página. Sim, dizer que o tempo tem a resposta para tudo não passa de um mito. Ora bem, os dias foram passando e desmascarando a verdadeira natureza das passas: parece que não eram desejos camuflados, mas vinham das uvas. Enfim. Uvas sem escrúpulos, a enganar assim as pessoas. Em novembro, o ano inicialmente novo, que já não ia para novo, começou a sentir umas pontadas nos ponteiros dos minutos e percebeu que o seu fim se aproximava. Depois, em dezembro, fez o balanço do ano e, ao abanar, caíram-lhe umas críticas em cima: que podia ter sido melhor, que o ano que vinha a seguir é que era. O costume. Ele estava de consciência tranquila e, se pudesse voltar atrás, teria começado novamente por janeiro. Ninguém agrada a toda a gente, e é verdade que há anos mais difíceis do que outros, outros armam-se em atletas e passam a correr, mas o importante é deixar de acreditar em passas e mostrar-lhes quem é que manda.

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" Acredito que nada do que é importante se perde verdadeiramente.
Apenas nos iludimos, julgando ser donos das coisas, dos instantes e dos outros.
Comigo caminham todos os mortos que amei, todos os amigos que se afastaram, todos os dias felizes que se apagaram.
Não perdi nada, apenas a ilusão de que tudo podia ser meu para sempre.”
 

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Não percas tempo nem energia com coisas que não fiquem. Não invistas em coisas que são apenas caprichos e que no dia seguinte já não te interessam. Não percas tempo com amigos de ocasião. Não uses aquilo que não te serve nem aquilo que toda a gente usa. Sobretudo, não uses ninguém. Prepara-te para a passagem de ano com aquilo que podes usar toda a vida e não só nessa noite. Usa determinação. Vontade de mudar. Usa alegria à prova de inveja. Usa motivação à prova de derrotismo. Não uses na passagem de ano aquilo que depois pões de lado e esqueces. Não queiras ser só nessa noite o que podes ser todo o ano. Toda a vida. Não guardes os sonhos na falta de vontade. Faz da passagem de ano uma passagem de testemunho. Dá lugar à pessoa que desejas ser.

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- É já amanhã que chega o Ano Novo! Estou tão ansiosa! Quero ter tudo pronto a tempo. Tem de estar tudo impecável para o receber. A ele e à mulher.
- À mulher? Mas o Ano Novo é casado?
- Fazes cada pergunta. Claro que é casado. Nunca ouviste dizer Ano Novo, Vida Nova?
- Ah, pois, realmente, mas não sabia que eram casados.
- São e não passam um sem o outro. E eu quero tudo prontinho para quando chegarem. Quero ter a alegria num brinquinho e nenhuma mágoa pelos cantos. A Vida Nova não gosta de coisas mal resolvidas nem de gavetas abertas. O que é para fechar no passado, feche-se. Não quero ter lástimas espalhadas pelo chão. Ajuda-me aí. Nessa caixa estão guardados alguns rancores, vai deitá-la no lixo. Não quero guardar nada a não ser a esperança e a confiança, mas vou pô-las num sítio sempre à vista. Uma pessoa, às vezes, guarda as coisas e depois não sabe onde as pôs quando precisa delas.
 
lado a lado

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"Gosto de pensar no Natal como um ato de subversão... Um menino pobre, uma mãe solteira, um pai adotivo... Quem assiste seu nascimento é a ralé da sociedade, os pastores. É presenteado por gente
'de outras religiões' (magos, astrólogos). A família tem que fugir e assim viram refugiados políticos. Depois voltam a viver na periferia. O resto a gente celebra na Páscoa... mas com a mesma subversão... sim! A revolução virá dos pobres! Só deles pode vir a salvação! Feliz Natal!!
Feliz subversão."
 
Dom Helder Câmara (1909-1999)

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