13.07.25
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Anathema
A minha avó é mais jovem do que eu. Mais indisciplinada, mais resistente à domesticação do tempo. Eu escondo-me atrás de horários, de seguros de saúde; ela vai. Vai por onde tiver de ir. Buracos, pedras, descidas sem corrimão. Nunca quis que lhe asfaltassem o caminho. “Quem alisa demais o chão escorrega”, disse-me uma vez, a rir, depois de cair.
Perdeu mais do que alguma vez terei. Irmãos, pais, tios, marido, um filho — essa ferida que nunca cicatrizou, mas que ela soube costurar com o silêncio. Não fala disso. Sorri. Não é um sorriso de quem esquece; é um sorriso de quem escolheu continuar. A minha avó olha a vida da frente para trás. Não quer aplausos nem palmadinhas nas costas; quer chá quente, um cobertor, o espaço do seu sofá, a certeza de que morrerá na sua casa como viveu nela: inteira, teimosa, imperfeita.
Tem um medo especial: o medo dos que não têm medo de viver. Um medo que não paralisa; afina. O medo como bússola; o medo como estratégia de sobrevivência. Ao contrário de mim, que tremo só de pensar em perder o conforto da anestesia quotidiana, ela caminha contra o medo dos que a amam: o nosso medo de a perder não a convence. Não a convenceu nunca.
Pode ser que eu um dia tenha a coragem dela. Ou não. Há heranças que não se podem herdar; apenas imitar. Tento todos os dias. Nem sempre consigo. Há manhãs em que me levanto e penso: a minha avó já teria ido à horta, limpado as lágrimas, feito café, chamado o medo pelo nome. Eu, nessa altura, ainda estou a tentar sair da cama.
Tento. Às vezes, por breves instantes, consigo. Nesses instantes, sou quase digno dela.
Pedro Chagas Freitas